Agenda Cinematográfica da Semana (7 a 13 de Janeiro de 2021)

 Caríssimos, 

Apetecia dizer "ano novo, vida nova"! Será que assim vai ser? No que ao cinema diz respeito, 2020 foi um ano completamente atípico. Muito menos estreias - durante mais de dois meses as salas de cinema estiveram encerradas - a indústria cinematográfica  esteve parada e alguns festivais de cinema foram  mesmo adiados. Para tentar suprir essas falhas, alguns cinemas recorreram a ciclos de cinema com filmes há muito estreados.

Nesta primeira edição de 2021, para além dos filmes recomendados que hoje estreiam, são também sugeridos outros filmes ainda em cartaz que merecem a vossa atenção: quer os estreados na verdadeira aceção da palavra quer os que foram repostos. Alguns são clássicos em cópia restaurada (4K).

Assim sendo, na vertente estreias absolutas, temos um fenómeno estranho. Do realizador sul-coreano Hong Sang-Soo estreiam quatro filmes, na prática um filme em quatro partes. Confusos? Eu explico.

Hong Sang-Soo, como realizador, tem 28 entradas creditadas na IMDB. No entanto, em Portugal apenas estrearam quatro: Noite e Dia (2008), Noutro País (2012), Sítio Certo, História Errada (2015) e O Dia Seguinte (2015). Em 2020, apresenta a "quarta parte" de um projeto iniciado em 2006 que acompanha, ao longo de vários anos o desenrolar de um triângulo amoroso entre Song, um realizador veterano, agora professor, Jingu, um realizador mais novo e Oki, uma atraente estudante de cinema. nesta "tetralogia" assistimos a diferentes momentos na vida vistos pelas diferentes perspetivas das três personagens. Quem conhece os filmes já referidos acima de Sang-Soo, não estranha esta aparente "confusão" em que se assiste à mesma cena várias vezes, tal qual as personagens intervenientes a vivenciaram e dela criaram as suas próprias conclusões. 

Assim sendo, com a estreia deste quarto filme, ou quarta parte deste projeto, o cinema Ideal apresenta os filmes anteriores. Ou seja, para entender a história toda tem que visionar as quatro partes na ordem certa, que a seguir apresentamos, o que implica disponibilidade mental - Sang-Soo não é um cineasta linear, convencional - e comprar quatro bilhetes. Para saber mais sobre cada um dos filmes seguem os links abaixo, por ordem cronológica, para as respetivas páginas no Cine Cartaz Público.

Antes faço aqui um parêntesis que se impõe. Este processo narrativo não é novo. 

François Truffaut, criou a personagem Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) e acompanhamos a sua vida ao longo de cinco filmes: Os Quatrocentos Golpes (1959), Antoine e Colette (1962), Beijos Roubados (1968), Domicílio Conjugal (1970) e Amor em Fuga (1979). 

Já Richard Linklater filmou a vida de quatro personagens - Mason (Ellar Coltrane), a sua irmã Samantha (Lorelei Linklater) e dos seus pais interpretados por Ethan Hawke e Patricia Arquette - ao longo de dez anos - mas condensou tudo num filme de 2h 45 min, "Boyhood: Momentos de uma Vida". Todos os anos, durante um mês, reunia o elenco e filmavam as cenas desse ano. Assim, todo o elenco vai "envelhecendo" na realidade ao longo do filme.

Consta que Luca Guadagnino pretende fazer o mesmo com as personagens Elio (Timothée Chalamet) e Oliver (Armie Hammer) de "Chama-me pelo teu Nome" (2017). A segunda parte - não uma sequela "inventada" para rentabilizar o sucesso do filme, dado na obra literária original de André Aciman, que escreveu com James Ivory o argumento adaptado do seu livro homónimo - as personagens se voltem a encontrar anos volvidos, desta vez nos EUA.

Voltemos aos filmes de Hong Sang-Soo.

Mulher na Praia (2006)

O Filme de Oki (2010)

O Dia em que Ele Chega (2011)

A Mulher que Fugiu (2020)


Ainda uma recomendação nas estreias da semana. Lembram-se de "Crash" (1996) o intenso e perturbador filme que David Cronemberg realizou adaptando a clássica novela de J.G. Ballard? Pois bem, está de volta numa cópia restaurada (4K). A (re)ver. Obrigatório não perder. O cinema Nimas aproveita a estreia para apresentar um mini ciclo de cinco filmes de homenagem ao realizador canadiano. Mas, sobre isso falará a Irene Ribeiro na sua rubrica cinematográfica. Por agora, nada mais a dizer deste filme que 24 anos depois da estreia ainda consegue impressionar e chocar os espetadores.

Crash (1996)


E agora as recomendações de filmes que já estrearam, mas ainda se mantêm em cartaz. Não contemplo nesta seleção filmes que integram ciclos como o Wang Kar-Wai, por exemplo. Apenas estreias absolutas em salas portuguesas.

- "As Verdadeiras Mães" de Naomi Kawase. Depois de três obras maravilhosas - A Quietude das Águas (2014), Uma Pastelaria em Tóquio (2015) e Esplendor (2017) - a sensibilidade de Kawase traz-nos um melodrama que tem recebido rasgados elogios.

- "Malmkrog" de Cristi Puiu. Depois de "A Morte do Sr. Lazarescu" (2005) e "Aurora (2010), Puiu apresenta-nos o seu primeiro filme de época "Malmkrog". 3h 21 min de "longas conversas filosóficas sobre progresso, ciência, morte, guerra e moralidade". Ambientado nos finais do século XIX,  numa grande mansão na Transilvânia, onde um aristocrata reúne, um grupo de amigos é um filme interessante a ver com a disposição necessária.

- "O Mal Não Existe" de Mohammed Rasoulof. Será, para a maioria dos espetadores e críticos, um dos melhores filmes de 2020. Quatro segmentos com a mesma temática: a aplicação da pena de morte no Irão sob o ponto de vista dos carrascos, alguns forçados (militares e polícias), a executar alegados criminosos. Quatro personagens que encaram essa "tarefa" de maneira bem diferente. Um filme que não deixa ninguém indiferente, tendo vencido do Festival de Berlim de 2020.

- "Apaga o Histórico", uma comédia inteligente, subtil e delirante de Gustave de Kervern e Benoît Delépine - a dupla que também realizou "Louise-Michel" (2008), "Mammuth" (2010), entre outros - narra a(s) história(s) de três amigos que se "debatem com problemas que, embora diferentes, estão todos relacionados com a omnipresença da internet". Urso de Prata (Berlim) para este filme completamente "fora da caixa" que vos vai agradar com toda a certeza.

- "Miss" de Ruben Alves, o realizador de "A Gaiola Dourada" (2013), é uma comédia ternurenta que nos narra a história de um jovem que, desde criança, sonha vencer o concurso de Miss França. "Agora que já é adulto, encontra finalmente a coragem necessária para esconder a sua identidade masculina e concorrer". Como protagonista o actor e modelo Alexandre Wetter, conhecido pela sua androginia.

- "Listen" de Ana Rocha de Sousa, é um poderoso melodrama baseado em muitos casos verdadeiros em que a Segurança Social britânica retira, de forma arbitrária, os filhos aos seus pais pois "consideram que as três crianças estão em em risco de sofrer danos emocionais, desencadeando assim os protocolos do sistema de adoção forçada". Lúcia Moniz, como a mãe desesperada, está brilhante no seu desempenho.

Seguem os respetivos links:

As Verdadeiras Mães"

Malmkrog

O Mal não Existe

Apaga o Histórico

Miss

Listen


E chegamos ao fim desta edição, mas antes ainda ficam umas breves informações. Ainda nesta semana irão receber uma série de documentos, que serão também aqui postados, habituais sempre que o ano chega ao fim:

- A lista integral dos 299 filmes estreados nas salas portuguesas (Excel), com toda a informação pertinente sobre cada um dos filmes.

- A lista oficial dos melhores filmes do ano - este ano em Word, pois nem todos têm powerpoint.

- Resumo dos seis principais festivais de cinema realizados em Portugal, com a indicação dos três melhores filmes exibidos em cada um dos certames.

Todos estes documentos serão igualmente publicados neste blogue.

Bom cinema para todos.

Volto em breve.




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