Início de um ciclo
2020 é um ano que ficará, para sempre, gravado nas paginas negras da História da Humanidade. Entrou sorrateiro, com notícias de que, afinal, o tal "vírus dos chineses" como Donald Trump o rebatizou, não era mais uma "gripe das aves" que robustecia as contas bancárias das empresas farmacêuticas, sobretudo se tivessem na sua administração algum Donald Rumsfeld (21.º secretário da Defesa dos EUA, mandato de George W. Bush). O vírus tinha ganho asas e já estava na Europa. Primeiro em Itália, depois em Espanha - as competições futebolísticas da UEFA não podiam parar - e depois todo o velho continente vivia tempos de incerteza, dúvida e sofrimento. Os infetados e os mortos começaram a ser apenas mais um número negro nas estatísticas desta pandemia que ninguém compreendia como tinha sido possível ter chegado do nada e tomado proporções exponencialmente devastadoras.
Os governos tiveram de tomar medidas, parecendo navegar à deriva sem conhecer o rumo a seguir... Pelo sim pelo não, Portugal - como muitos outros países - optou por confinar a sua população. Dois meses e meio em que a vida quase parou como num daqueles filmes de ficção científica em que, depois do apocalipse nuclear, as ruas das cidades ficam desertas sem movimento nem o som que antes, por ser em excesso, contribuíam para o incremento da poluição citadina.
No que a nós concerne, meus caros confrades, estes dois meses e meio vieram - e isso é tão nosso, tão português - aproximar-nos, ainda mais, unidos pelo designo comum de enfrentar este tenebrosos inimigo. Deixamos de viajar, de organizar eventos e até um mero jantar de amigos deixou de ser possível realizar. Mesmo nas nossas famílias as rotinas mudaram: nunca uma Páscoa, tão tradicional num país católico como o nosso, tinha sido assim riscada do mapa. Seguiram-se as festas populares de Junho e as romarias de Agosto... E, entrados em 2021, as coisas não parecem estar melhor.
Nos meses de confinamento - segunda quinzena de Março, Abril, Maio e primeira quinzena de Junho - estivemos hibernados em casa e deu-se o tal fenómeno estranho. Alguns chamar-lhe-iam uma epifania coletiva. E isso, meus caros confrades, é mérito de todos nós. Porque somos como somos, puxem dos merecidos galões, e temos o coração no sítio. Há anos que enviava, por correio eletrónico, para todos os confrades informação cinematográfica às quintas, música para o fim de semana ás sextas, reportagens fotográficas e outras informações sempre que tal se justificava. Estando 24 horas sobre 24 horas encerrado em casa passamos a ter edições diárias com conteúdos informativos, recreativos e culturais. Em pouco tempo, mais de 20 confrades começaram a enviar, diariamente, os seus "contributos" quer por mail quer por whatsapp. A minha sala transformou-se numa sala de redação onde recebia, analisava, arquivava e ia publicando toda essa informação que ia chegando, Sem exagero deve ter ocupado 2/3 do dia nessas funções que, devo registar, eram para mim e, estou em crer, para todos vós muito enriquecedoras.
O arquivo ia tomando proporções gigantescas, pois cada mail não podia exceder os 25 GB e havia vídeos que ultrapassavam esse valor. Daí termos passado a ter duas, três e algumas vezes quatro edições para escoar tanto material de qualidade. O primeiro do dia saía pelas sete ou oito da manhã, para poder incluir nele as capas dos jornais e revistas do dia com acesso ao resumo das notícias destacadas. E, sem se darem conta disso, de repente todos os confrades passaram a ser uma enorme família. Ao fim e ao cabo, passavam boa parte do dia numa partilha à distância dos conteúdos dos mails. E estamos a falar de uma lista de quase 140 destinatários. Pelo menos metade, os ecos que chegavam assim o comprovavam, tinham nessas edições coletivas a maneira de ocupar os seus longos dias de compulsivo recolhimento. E, o mais curioso, é que sendo eu o pivô deste aglomerado de amigos que foram chegando ao longo da vida, todos eles sentiam que se conheciam há muito, sem nunca se terem ainda encontrado ao vivo. É que, tal como em concursos televisivos tipo Big Brother, as horas confinadas parecem ser uma eternidade. Esperamos, tão logo que possível, fazer a prometida festa em que, finalmente, as pessoas vão conhecer ao vivo as pessoas que estão por trás dos nomes que diariamente lhes entravam casa dentro com os seus contributos.
Mas eis que o Mr. Google começou a fazer das suas e, na segunda quinzena de Maio, a maioria dos mails passaram a ser recusadas pelos mecanismos de controlo que, sem sequer darmos por isso, existem nos nossos PCs "instalados" pelo "polícia cibernético" ao serviço do Mr. Google. Tantos mails diários para tantos destinatários? Spam com eles ou, pior que isso, eram meramente barrados... Tanto trabalho e esforço coletivo apenas pelo desejo fraternal de partilhar e conviver eram assim "impedidos de chegar ao seu destino". Várias tentativas de tornear o problema foram fracassando...
E eis que surgiu uma alternativa: o Whatsapp.
Vantagens: Podia enviar diariamente TUDO que chegasse na hora, sem limitações de "peso".
Desvantagens: Não podia fazer introdução dos materiais enviados nem identificar os seus emissores, para além de só poder enviar para os poucos que têm essa aplicação e, mesmo assim, em grupos de cinco. Assim, apenas 30 (6 grupos de 5) têm recebido os conteúdos que recebo diariamente e partilho na hora. E já nem falo do trabalho e tempo perdido em funções repetitivas, para além do espanto de quem está comigo que me vê quase sempre agarrado ao telemóvel a teclar com o entusiasmo de um pré adolescente a enviar mensagens para a sua rede de amigos.
Assim, em 2021 as coisas tinham de se democratizar de novo para que todos pudessem voltar a ter acesso aos mais de 3 000 documentos (imagens, vídeos, Powerpoints, GIFs e outros) que, desde Março de 2020, tenho vindo a receber de todos vós. Lembrei-me da blogosfera - explodiu em 2001 com o ataque às Twin Towers - e que domino um pouco melhor que a maioria das ferramentas mais modernas que o nosso amigo Luís Vidigal me recomendou, mas que, usando um termo mais popular, são "muita areia para a minha camioneta". Ao fim e ao cabo, durante muitos anos, mantive seis blogues que alimentava diariamente. Um generalista e os outros cinco temáticos (cinema, música, fotografia, pintura e moda). Ainda hoje estão no "espaço cibernético" e continuam a ter visitas, a maioria de países estrangeiros em que nem se fala a nossa língua. Coisas da internet.
Voltando ao presente. Decidi designar este blogue por "Confraria das Viagens - Partilhas". Faço aqui um parenteses para explicar - a quem por vezes pergunta - a origem do nome da nossa confraria. Viagens - tal como Almeida Garrett em "Viagens na minha terra" que, em termos físicos tem a narrativa localizada no Vale de Santarém, realiza muitas outras viagens culturais, históricas... - também aqui neste blogue viagens tem esse sentido mais alargado. Tanto pode ser uma viagem em termos tradicionais que convosco partilhamos, como viagens espirituais por tudo aquilo que torna a vida bela e anima os nossos dias. Tudo isto com o contributo de todos vós.
Que vantagens tem o blogue? Posso partilhar mais material por dia, introduzir e contextualizar os documentos e identificar os seus emissores, por exemplo. E todos vós podem deixar os vossos comentários aos documentos e "dialogar" com outros confrades, embora não em tempo real, Já sabem que da discussão nasce a luz!
Podem ter acesso ao blogue sempre que queiram: googlando o nome do blogue, tendo o blogue nos vossos favoritos ou, melhor ainda, sendo seus seguidores pois assim receberão notificações a cada post publicado. E lembrem-se que é, como não podia deixar de ser, um espaço de democracia e liberdade. Entre os confrades temos diferentes tendências políticas, clubísticas e outras... Este é um espaço sem censura, vosso... Sou um mero editor, como até aqui. Sejam bem-vindos!
De seguida, o nome de todos aqueles que desde Março de 2020 - alguns já enviavam material antes - até agora nos têm enviado tantos contributos para que eu os possa partilhar com todos os confrades. Serão apresentados por ordem alfabética. Em breve, há que fazer justiça aos campeões de envio de contributos, apresentarei uma tabela discriminativa. Alguns confrades enviaram, até ao momento presente, mais de 500 documentos. E alguns apenas recorrendo apenas a uma ferramenta como a Fátima Deus que só recorre ao correio eletrónico ou o João Sacramento que apenas recorre ao Whatsapp. Outros campeões - Dina Monteiro, Carlos Bragança, Madalena Nabais - entre muitos mais - recorrem a ambos os procedimentos. A todos os meus agradecimentos por tornarem esta hercúlea e generosa tarefa de partilha possível. A todos um enorme Bem Hajam!
AGRADECIMENTOS
Alice Paiva
Ana Lavrador
Antónia Matias
António Antunes
António Farinha
Carlos Bragança
Carlos Carvalho
Conceição Fonseca
Dina Monteiro
Diogo Rosa
Fátima Deus
Fátima Sobral
Fernanda Figueiredo
Fernanda Lobo
Inês Rodrigues
Isa Figueiredo
Joaquim Pereira de Sousa
João Sacramento
Jorge Monteiro
José Barata
José Madeira
Lisa Quirino
Lourdes Camacho
Lucília Narciso
Luís Santa Bárbara
Luís Vidigal
Luísa Costa
Madalena Nabais
Manuela Costa
Manuela Freitas
Maria dos Anjos Marcelino
Maria José Silva
Maria Eulália Domingos
Mário Peixoto
Marília Sousa
Nélia Rebelo
Odete Duarte
Paulo Amaro
Regina Correia
Rodolfo Bocchi
Rosa Dantas
Tina Cordeiro
Espero não ter falhado nenhum nome pois consultei todos os ficheiros onde fui arquivando todos os contributos que foram chegando.
Termino esta introdução com breves notas sobre o presente blogue:
Não há rubricas fixas, com exceção do cinema ás quintas, dia de estreias, embora possa haver cinema noutros dias. A rubrica "Música para o fim de semana" deixa de existir pois, todos os dias, teremos três videoclips subordinados a um tema ou cantor/banda, podendo haver mais...
Hoje teremos três clips dedicados a três vozes da música portuguesa que partiram:
- Mota Jr., rapper português que cantava as suas músicas em crioulo brutalmente assassinado aos 28 anos num crime horrendo que mais parece enredo de filme policial.
- Sara Carreira, jovem cantora que morreu, aos 21 anos, vítima de um acidente rodoviário na A1 e deixou o país consternado com o seu trágico e precoce desaparecimento.
- Carlos do Carmo, aos 81 anos, um dos maiores nomes da música e da cultura portuguesas, falecido durante uma operação a um aneurisma na madrugada do primeiro dia de 2021.
Que descansem em paz. Apenas conheci o Carlos do Carmo, um gentleman, mas as mortes trágicas dos dois jovens não podem deixar de nos consternar. A vida é assim...
Voltamos amanhã.
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