TOP 10 - Cinema Internacional
TOP 10 - MELHORES FILMES INTERNACIONAIS 2020
UMA VIDA ESCONDIDA (Terrence Malik)
CORPUS CHRISTI - REDENÇÃO (Jan Komaza)
A VIDA INVISÍVEL (Karim Aïnouz)
RETRATO DE UMA RAPARIGA EM CHAMAS (Céline Sciamma)
O PARAÍSO, PROVAVELMENTE (Elia Suleiman)
O MAL NÃO EXISTE (Mohammed Rasoulof)
CARTAZES E TEXTOS SOBRE OS FILMES
Terrence Malik (1944) é um cineasta de culto. Misterioso, discreto raramente concede entrevistas e há poucas fotos suas. As suas últimas obras - "A Árvore da Vida" (2'11), "A Essência do Amor" (2012), "Cavaleiro de Copas" (2015) - foram "viagens interiores", herméticas que dividiram crítica e público. "A Vida Escondida" tem uma narrativa mais linear, baseada na história real do agricultor austríaco Franz Jägerstätter que se recusa a integrar o exército nazi depois de notificado para tal. O filme tem quase três horas e em nada desmotiva o espectador. Numa primeira parte podemos acompanhar a vida feliz de Franz com a mulher e as suas filhas numa pequena povoação nas montanhas. As rotinas da aldeia - a fotografia do filme é assombrosa, fazendo lembrar uma das sua primeiras obras: "Dias do Paraíso" (1978) - contrapõem-se ao lado negro do filme que se segue. A detenção de Franz, considerado traidor, a ostracização a que a sua família é sujeita já são territórios que Malik domina como poucos. Os abismos da mente humana são aqui retratados com a mestria habitual deste realizador canadiano que assina aqui uma das suas obras mais marcantes.
"1917" é o melhor filme da carreira, brilhante e diversificada, de Sam Mendes (1965). Mendes, que começou por ser encenador teatral, provou ao realizar dois filmes da saga James Bond - "007 Skyfall" (2012) e "007 Spectre" (2015) - que, para além de saber extrair notáveis interpretações dos seus atores, também tem "sabedoria" para dirigir cenas de intensa ação. "1917" tem essas duas vertentes. Todo o elenco está brilhante, destaque para o protagonista George MacKay, mas é na parte "técnica" que o filme agarra as plateias. As cenas da primeira parte do filme, filmados em extensos planos "one shot", exigem do realizador e restante equipa, para além de intenso e árduo trabalho uma mestria notável. Longos ensaios para filmar com luz natural em curtos períodos de tempo, as cenas de deslocação dos atores pelas trincheiras e as cenas de guerra ficarão, para sempre, na memória dos espectadores. O horror da guerra que faz de adolescentes improváveis heróis - o filme é baseado nas memórias reais do avô do realizador que foi soldado na I Guerra Mundial - é um tema recorrente no cinema, mas Mendes consegue transcender tudo que já vimos antes.
"Corpus Christi" foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional (atual designação da antiga secção de Filme Estrangeiro), em representação da Polónia. Seria difícil bater "Parasitas" e "Dor e Glória", mas a intensidade dramática da narrativa, subtil realização e magistral desempenho do protagonista (Bartosz Bielenia) tornam este filme de visão obrigatória. Jan Komasa (1981) é um realizador a seguir com muita atenção pois a forma como conduz o seu filme em ambientes de profunda intensidade dramática é sublime. O protagonista, com a profundidade e transparência do seu olhar, quase nem precisava de texto para expressar os sentimentos da sua personagem. O argumento/realização retratam, de forma crua e real, quer o ambiente do centro de detenção para jovens para onde o protagonista é enviado no início do filme e onde descobre a sua vocação sacerdotal devido à relação que estabelece com o pároco do estabelecimento, quer a vida quotidiana de uma pequena povoação para onde é enviado para trabalhar numa carpintaria. Só que o ambiente local está "assombrado" por uma tragédia recente que vitimou uma série de jovens da terra. Para adensar o enredo, ao chegar é confundido com o novo padre que está para chegar e aí, ao resolver dar asas á sua recém descoberta vocação, as coisas vão ficar ainda mais emaranhadas.
Karim Aïnouz (1966) já é conhecido dos portugueses através de três das suas longas metragens: "Madame Satã" (2002), "O Céu de Suely (2006) e "Praia do Futuro" (2014). "A Vida Invisível" foi apresentado no Festival de Cinema de Cannes, onde ganhou o prémio "Un Certain Regard". Definido como um "melodrama tropical", ambientado no Rio de Janeiro na década de 50 do século passado, narra a história das irmãs Eurídice e Guida que, apesar das diferenças de personalidade e temperamento, têm uma relação de grande proximidade. Uma atitude mais irrefletida de uma delas e o despotismo autoritário do patriarca da família (António Fonseca) vai fazer com que as irmãs, apesar de viverem na mesma cidade, nunca mais se voltem a encontrar. Grandes interpretações e um enredo forte e acutilante deixam os espectadores emocionados com as injustiças da vida e como a maldade de uma pessoa pode destruir, para sempre, a felicidade de outras. As vidas paralelas das duas irmãs, com personagens secundárias muito bem construídas que só enriquecem a força da narrativa, conferem ao filme uma veracidade que toca o coração de quem assistir ao filme. A cena do "quase encontro" das duas irmãs, muitos anos depois, num restaurante carioca, é de antologia. O argumento do filme adapta a obra "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", de Martha Batalha que, para além do drama exposto, ainda retrata a vida quotidiana na "cidade maravilhosa" dessa altura com temáticas como o machismo, racismo e outros "valores" que caracterizam as personagens essa época.
Céline Sciamma (1980), realizadora e argumentista francesa de sucesso, já tinha dado nas vistas com duas obras fundamentais: "Maria-Rapaz" (2011) e "Bando de Raparigas" (2014). Neste seu primeiro "filme de época", apresentado em competição no Festival de Cinema de Cannes, onde recebeu o prémio de Melhor Argumento e a Queer Palm, traz-nos uma história apaixonante que decorre em França, nos finais do século XVIII. Marianne (Noémie Merlant), uma jovem pintora, é contratada para fazer um retrato de Héloïse (Adèle Haenel), uma jovem aristocrata que acaba de sair do convento, após a morte (aparente suicídio) da sua irmã. Essa pintura será posteriormente oferecida ao homem a quem Marianne foi prometida em casamento. Como a jovem não deseja esse casamento, recusa-se a posar, pelo que a pintora terá de cativar a amizade da jovem. Com o tempo, criam uma forte intimidade que não tarda em se transformar em amor. Filme de grande beleza plástica, atenção á cena que acaba por justificar o quadro e o título do filme, é também um filme no feminino e, de certa forma, "revolucionário" para a época como a cumplicidade e amizade com a jovem criada documenta.
Pietro Marcello (1976) tem em "Martin Eden" a sua segunda longa-metragem de ficção. E saiu-se muito bem pois o filme esteve em competição pelo Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza – onde o pritagonista Luca Marinelli arrecadou o Prémio Volpi Cup de Melhor Actor. Inspirado no romance homónimo escrito, em 1909, por Jack London, a história foi adaptada á sociedade napolitana de então. O grande sonho do protagonista, apesar de oriundo de uma família de pescadores, era ser escritor. Sem a necessária instrução, acaba por se tornar um esforçado autodidata e, com a sua dedicação acaba por ser bem sucedido. Para adensar o enredo, acaba por conhecer uma jovem de uma família abastada por quem se apaixona. Para além da intensidade dramática do enredo e da notável direção artística ao recrear a cidade de Nápoles nessa época, o filme ainda se revela como uma profunda homenagem à poesia em geral e ao persistente esforço para se conseguir materializar um sonho. Um filme que enche a alma dos espectadores que se vão sentir identificados e solidários com a vida/luta do protagonista. O desempenho de Luca Marinelli justifica, plenamente, todos os encómios que lhe têm sido atribuídos.
Elia Suleiman (1960), realizador e protagonista de "O Paraíso, Provavelmente" já é bem conhecido no nosso país pois "Intervenção Divina" (2002) e "O Tempo que Resta" (2009) foram muito bem acolhidos em Portugal, bem como no resto do mundo. Desta vez a narrativa deixa a Palestina. O protagonista aventura-se pelo mundo, em busca de uma mudança na sua vida. Só que nem Paris nem Nova Iorque o encantam e muito menos fazem esquecer a Palestina. Ainda mais controlo policial, nas ruas e fronteiras, mais armas, mais violência... Sente-se um estranho, vítima de preconceito e até discriminação racial. Com o seu habitual tom de comédia amarga, convida-nos a refletir sobre questões cada vez mais prementes e na ordem do dia: identidade e nacionalidade. Só que a sua maneira única de filmar transforma em poesia imagética até esse descontentamento. Se, por um lado entristece os espectadores mostrando-lhe aquele mundo real que ele finge não ver, por outro o delicado humor e profunda ternura com que o faz são como que uma cálida chama que aquece os seus corações. Sim, talvez ainda haja esperança num mundo melhor...
A cineasta marroquina Maryam Touzani (1980) conseguiu com esta sua primeira longa-metragem ter a honra de a estresr no Festival de Cinema de Cannes. Mais um exemplo da vitalidade das pequenas cinematografias, ainda por cima no feminino. De facto, o filme reflete esse olhar especial e baseia-se numa situação real, vivida na sua infância. Touzani construiu um poderoso drama que realça a importância da amizade e da generosidade. Podemos mesmo afirmar que é um filme sobre o universo feminino, subtil, delicado e enternecedor. Abla é uma viúva que vive sozinha com a sua filha de oito anos. Vivem, modestamente, em Casablanca, dedicando-se, para sobreviver, à manufatura e comercialização de pão e bolos. Um dia, Samia, uma jovem numa situação ainda mais precária que a delas, bate-lhes á porta. Inicialmente renitente em lhe dar acolhimento e prestar auxílio, Abla condói-se com o estado de gravidez da jovem e cede á influência da sua filha que, desde a primeira hora, suplicava á mãe para ajudar a rapariga. Com o tempo, vai-se cimentando uma forte amizade entre as três, mas uma decisão está ainda por tomar: o destino do bebé que está para nascer. Terno e delicado é um filme simples que, talvez por isso mesmo e pela nobreza de sentimentos e valores que transmite. tem cativado os espectadores que acabam o filme emocionados e de coração lavado.
Segundo o cineasta Ruben Östlund, na Suécia há duas fortes correntes cinematográficas: os que são inspirados por Ingmar Bergman e os que são influenciados por Roy Andersson (1943). Östlund opta por Andersson... e eu também. Os seus filmes são deliciosamente poéticos, em termos imagéticos e de argumento. Cada filme traz uma sucessão de quadros em que as angústias, desejos e pensamentos dos normais cidadãos são a essência desses pequenos contos cinematográficos. Os planos podem até ser estáticos, mas a direção de atores confere uma força às cenas que agarram o espectador e o fazem sentir envolvido com as problemáticas e inquietação das personagens. O humor é subtil, o respeito pelas problemáticas personagens uma regra. As histórias podem parecer banais - um pai pára na rua para apertar os atacadores dos sapatos da filha, um padre está angustiado porque perdeu a sua fé... - mas que é a vida se não isso mesmo? Uma sucessão de factos banais, até rotineiros, com as pessoas em busca de uma felicidade que, por vezes, teima em aparecer. Johnsson filma a fragilidade humana, enaltece o trivial como se de algo extraordinário se tratasse. Confere dignidade às suas personagens. O filme esteve em competição no Festival de Cinema de Veneza, onde recebeu o Leão de Prata para Melhor Realizador. É um filme melancólico sobre a vida, o amor e a morte. Um pouco na linha das suas obras anteriores: "Canções do Segundo Andar" (2000), "Tu que Vives" (2007) e "Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência" (2014).
O cinema iraniano está em alta. Da atual fornada de realizadores, Mohammad Rasoulof (1973) afina pela mesmo diapasão dos colegas: denunciar, ainda que subtilmente, a situação ditatorial que se vive no Irão. Este filme teve de ser rodado clandestinamente. Composto por quatro segmentos, independentes uns dos outros, todos partilham a mesma temática: a aplicação da pena de morte no Irão sob o ponto de vista dos carrascos, alguns forçados (militares e polícias), a executar alegados criminosos. O filme tem, assim, quatro protagonistas que encaram essa "tarefa" de maneira bem diferente. Será, para a maioria dos espetadores e críticos, um dos melhores filmes de 2020, pois não deixa ninguém indiferente. Ganhou o Urso de Ouro (prémio principal) do Festival de Berlim de 2020. No entanto, o regime iraniano proibiu o cineasta de se deslocar a Berlim, e condenou-o mesmo a um ano de prisão por "propaganda contra o sistema". O delito de opinião, como o filme mostra num dos seus quadros pode mesmo conduzir o seu autor à pena de morte. Rasoulof apenas questiona "até que ponto a liberdade individual pode ser expressada sob um regime despótico e as suas aparentemente inescapáveis ameaças".
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