Fátima Deus apresenta

Do stock da Fátima Deus trazemos hoje uma interessante peça que, dado a palavra "Saudade" ter sido considerada a palavra do ano 2020, vá lá saber-se porquê?, nos explica a origem do termo, a sua importância na nossa História, a sua especificidade (só existe na nossa língua e na galega) e a sua recorrente utilização na nossa poesia.

Traz-nos também dois poemas, um de Pablo Neruda e outro de João de Deus, e uma pintura de Almeida Júnior que tomam a "saudade" por musa inspiradora.

Decidi ainda acrescentar, em post autónomo, um vídeo musical de Étienne Daho (1956), cantor francês de origem argelina que, em 1991, lançou uma canção intitulada, adivinhem lá como?, "Saudade". Além do vídeo, terão também a letra. Será que Daho assimilou bem o significado da palavra? Reparem que ele não ousa traduzir a palavra/sentimento. A canção tem letra em francês, mas intitula-se "Saudade". Com quem terá aprendido esse sentimento? A resposta adivinha-se...

E, como o que é nacional é bom, não podia esquecer a homónima canção dos Heróis do Mar que, em 1981, lançaram este seu tão icónico tema. Mais um post, mas a palavra/sentimento merecem!


SAUDADE É a palavra do ano 2020. Vale a pena ler...



Figura: Quadro pintado em 1899 por Almeida Júnior

 

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego e português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colónia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos.

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão.

Uma visão mais especifista aponta que o termo saudade advém de solitude e saudar, onde quem sofre é o que fica à esperar o retorno de quem partiu, e não o indivíduo que se foi, o qual nutriria nostalgia. A génese do vocábulo está directamente ligada à tradição marítima lusitana.

A origem etimológica das formas atuais "solidão", mais corrente e "solitude", forma poética, é o latim "solitudine" declinação de "solitudo, solitudinis", qualidade de "solus". Já os vocábulos "saúde, saudar, saudação, salutar, saludar" proveem da família "salute, salutatione, salutare", por vezes, dependendo do contexto, sinônimos de "salvar, salva, salvação" oriundos de "salvare, salvatione".

O que houve na formação do termo "saudade" foi uma interfluência entre a força do estado de estar só, sentir-se solitário, oriundo de "solitarius" que por sua vez advém de "solitas, solitatis", possuidora da forma declinada "solitate" e suas variações luso-arcaicas como suidade e a associação com o ato de receber e acalentar este sentimento, traduzidas com os termos oriundos de "salute e salutare", que na transição do latim para o português sofrem o fenómeno chamado síncope, onde se perde a letra interna l, simplesmente abandonada enquanto o t não desaparece, mas passa a ser sonorizado como um d. E no caso das formas verbais existe a apócope do e final.

O termo saudade acabou por gerar derivados como a qualidade "saudosismo" e seu adjetivo "saudosista", apegado à ideias, usos, costumes passados, ou até mesmo aos princípios de um regime decaído, e o termo adjetivo de forte carga semântica emocional "saudoso", que é aquele que produz saudades, podendo ser utilizado para entes falecidos ou até mesmo substantivos abstratos como em "os saudosos tempos da mocidade", ou ainda, não referente ao produtor, mas aquele que as sente, que dá mostras de saudades.

 

Alguns poemas....

 

SAUDADE

 

Saudade - O que será... não sei... procurei sabê-lo

em dicionários antigos e poeirentos

e noutros livros onde não achei o sentido

desta doce palavra de perfis ambíguos.

 

Dizem que azuis são as montanhas como ela,

que nela se obscurecem os amores longínquos,

e um bom e nobre amigo meu (e das estrelas)

a nomeia num tremor de cabelos e mãos.

 

Hoje em Eça de Queiroz sem cuidar a descubro,

seu segredo se evade, sua doçura me obceca

como uma mariposa de estranho e fino corpo

sempre longe - tão longe! - de minhas redes tranquilas.

 

Saudade... Oiça, vizinho, sabe o significado

desta palavra branca que se evade como um peixe?

Não... e me treme na boca seu tremor delicado...

Saudade...

 

Pablo Neruda

  

SAUDADE

 

Tu és o cálix;

Eu, o orvalho!

Se me não vales,

Eu o que valho?

 

Eu se em ti caio

E me acolheste

Torno-me um raio

De luz celeste!

 

Tu és o collo

Onde me embalo,

E acho consolo,

Mimo e regalo:

 

A folha curva

Que se aljofara,

Não d'agoa turva,

Mas d'agoa clara!

 

Quando me passa

Essa existencia,

Que é toda graça,

Toda innocencia,

 

Além da raia

D'este horizonte

Sem uma faia,

Sem uma fonte;

 

O passarinho

Não se consome

Mais no seu ninho

De frio e fome,

 

Se ella se ausenta,

A boa amiga,

Ah! que o sustenta

E que o abriga!

 

Sinto umas magoas

Que se confundem

Com as que as agoas

Do mar infundem!

 

E quem um dia

Passou os mares

É que avalia

Esses pezares!

 

Só quem lá anda

Sem achar onde

Sequer expanda

A dôr que esconde;

 

Longe do berço,

Morrendo á mingoa,

Paiz diverso...

Diversa lingoa...

 

Esse é que sabe

O meu tormento,

Mal se me acabe

Aquelle alento!

 

Ah, nuvem branca

Ah, nuvem d'oiro!

Ninguem me estanca

Amargo choro;

 

E assim que passes

Mesmo de largo...

Vê n'estas faces

Se ha pranto amargo.

 

Tu és o norte

Que me desvias

De ir dar á morte

Todos os dias;

 

A larga fita

Que d'alto monte

Cerca e limita

O horizonte!

 

Tu és a praia

Que eu sollicito!

Tu és a raia

D'este infinito!

 

Se ha uma gruta

Onde me esconda

Á força bruta

Que traz a onda;

 

Á força immensa

D'esta corrente

D'alma que pensa,

Alma que sente;

 

Se ha uma véla,

Se ha uma aragem,

Se ha uma estrella,

N'esta viagem...

 

É quem eu amo,

A quem adoro!

E por quem chamo!

E por quem choro!

 

João de Deus, in 'Ramo de Flores'

 

 

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