Hoje falo eu - António Antunes

I - Infância 

Todos - ou quase - quando nascemos, encontramos uma família.

Essa família, não escolhida por quem nasce - e que não a escolheu o recém-nascido - irá ser durante toda a sua vida, uma referência e um apoio.

Esse conjunto familiar conduzirá a infância do recém-chegado para uma língua, uma religião, uma pátria.

Serão estes, muito provavelmente para sempre, os seus níveis de formatação, orientação e suporte individual.

Estas estruturas serão sempre por nós referenciadas quando as opções entre bem e mal, belo e feio, aceitável e inaceitável, surgirem.

Cada um de nós é, por tudo isto, produto do conjunto de circunstâncias encontradas após o nascimento. Não apenas isso, mas… principalmente.

E, como sempre na nossa História, as posses económicas da família serão determinantes para o seu esforço, maior ou menor, de moldar a cultura da criança. 

A diferença dessas origens familiares marcará, decisivamente, a diferença de estilo de vida entre os jovens a seguir e, entre os homens, depois.

Até poderá ser certo afirmar: “Os homens nascem iguais”. 

Mas a família, torna-os bem diferentes, logo após o primeiro segundo de nascimento…

É, e será, durante séculos, praticamente impossível encontrar para recém-nascidos formas equivalentes de introdução social. Até ao início da puberdade, cada criança absorverá as virtudes e defeitos da família e o poder económico dos seus progenitores ditará o patamar de passagem da criança  a jovem, numa transmissão de testemunho dinástico de base cultural.

Porquê esta preocupação tão acentuada com a infância?

Porque a infância é a fase da vida onde existe avidez especial para aprender, imitar, inquirir. Da “idade dos porquês” até à admiração aos super-heróis, a criança anseia por informação para estimular a sua imaginação. 

Evidencia uma capacidade de absorpção de conhecimentos única em toda a sua existência, no desejo de se tornar, rapidamente, adulto.

É o momento ímpar para formar culturalmente consciências com valores sendo, cada vez mais, necessário ir além dos tradicionais Deus, Pátria e Família evidenciando também a mais-valia social da Honestidade, Transparência e Respeito respectivamente pelos comportamentos, actos e sociedade.

A família poderá ser o elemento catalisador para a inserção destes valores como poderá ser razão para o seu desconhecimento… 

Até ao início da puberdade, cada criança absorverá - acriticamente, por estar despojado de referências intensas que as possam contrariar- as virtudes e defeitos da sua família e, o poder económico dos seus progenitores vai ditar o nível de enquadramento social na passagem da criança para jovem.

Poderá seguir-se a contestação da puberdade ao edifício cultural até aí construído mas, os pilares de raciocínio, esses, permanecerão.

António Antunes



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