Hoje falo eu - Jorge Monteiro
Hoje venho recomendar-vos uma obra fundamental, "A Manipulação dos Media - Os Efeitos Extraordinários da Propaganda" para entendermos como o poder político pretende subjugar e manipular os cidadãos "incautos". Escrito por um dos meus autores/pensadores favoritos, Noam Chomsky, trago-vos alguns excertos para melhor entenderem o poder de análise e de argumentação deste filósofo contemporâneo, eterno guerreiro em luta com os poderosos que, para além de denunciar, não resiste a combater.
Lê-se de um fôlego esta obra, cada vez mais atual, de um dos maiores pensadores dos nossos tempos: Noam Chomsky. Publicado em 2003, analisa a forma como, nos E.U.A., o poder político, de conluio com boa parte da imprensa, conseguiu manipular o povo norte-americano, que ele designa por "rebanho tolo", assustando-o com presumíveis, quase sempre inventados, "inimigos externos", capazes de destruir os cidadãos americanos e o seu "invejado", até imposto pelo cinema, modo de vida. O chamado "american way of leaving" que prometia o El Dorado a todos que trabalhassem muito e fossem humildes ("american dream").
Noam Chomsky, para quem não sabe, é professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massassuchetts (MIT) com vasta obra de investigação na área, mas tem-se notabilizado, bem mais, pela sua assumida postura de "homem de esquerda", feroz opositor da política, sobretudo externa, dos EUA. Definem-no como "anarco-sindicalista". Bono Vox (U2) chamou-lhe "Elvis da Academia, o rebelde sem causa".
Deliciem-se com os excertos, mas não deixem de ler a obra.
EXCERTOS DA OBRA "A MANIPULAÇÃO DOS MEDIA"
“Uma concepção alternativa de democracia afirma que as pessoas devem ser impedidas de conduzir os seus próprios assuntos e que os meios de informação devem ser estreita e rigidamente controlados.” (Página 9, linhas 17 a 21)
“Foi então criada uma comissão governamental de propaganda, a Comissão Creel, que conseguiu, no espaço de seis meses, transformar uma população pacifista numa população histérica e fomentadora da regra, que queria destruir tudo o que fosse alemão, despedaçar os alemães, ir para a guerra e salvar o mundo.“ (Página 11, linhas 9 a 15)
“Os meios a que recorreram foram muito amplos e diversos. Por exemplo, fabricou-se uma boa quantidade de atrocidades que teriam sido cometidas pelos hunos (…) Muitos desses factos foram inventados pelo Ministério da Propaganda britânico, cujos objectivos, nessa época, como se sabe pelas suas deliberações secretas, era orientar o pensamento da maior parte do mundo.“ (Página 12, linhas 19 a 23, 25 e 26 e página 13, linhas 1 a 4)
“Walter Lippmann, que era o decano dos jornalistas norte-americanos (…) esteve envolvido naquelas comissões de propaganda e reconheceu os seus êxitos. Afirmou que aquilo a que ele chamava uma revolução na arte da democracia podia ser usado para fabricar consentimento. (…) A opinião pública não distingue os interesses comuns que só podem ser compreendidos e orientados por uma classe especializada de homens responsáveis.“ (Página 15, linhas 4,5 a 10, 19 e página 16, linhas 1 a 3)
“Lippmann argumentava que numa democracia que funcione devidamente existem classes de cidadãos. (…) A classe especializada. São as pessoas que analisam, executam, tomam decisões e dirigem as coisas nos campos político, económico e ideológico. (…) A grande maioria da população (…) é o rebanho tolo. Temos que nos proteger do tropel e do fragor do rebanho tolo.“ (Página 17, linhas 10, 11; 14 a 17 e 23 a 26)
“A função do rebanho tolo é ser espectador, não participante activo. (…) Temos que domesticar o rebanho tolo e não consentir que este se enfureça, vagueie e destrua coisas.“ (Página 18, linhas 7, 8 e página 19, linhas 3 a 5)
“Assim temos uma espécie de sistema educativo dirigido aos homens responsáveis, a classe especializada. (…) O rebanho tolo, basicamente tem de ser entretido (…) afastá-lo de perturbações." (Página 20, linhas 11 a 13 e 17 a 20)
“A propaganda está para uma democracia como o cacete está para um Estado totalitário.“ (Página 22, linhas 5 a 7)
“Os Estados Unidos foram os pioneiros da indústria das relações públicas. O objectivo que se propuseram foi controlar o estado de espírito público tal como os seus líderes o formulam. Aprenderam bastante com os bons resultados da comissão Creel… (…) Durante algum tempo, na década de vinte, conseguiu criar uma quase total subordinação do público aos interesses empresariais. (…) Hoje em dia, gasta-se com relações públicas qualquer coisa como um milhar de milhão de dólares por ano. O seu objectivo foi sempre controlar o estado de espírito público.“ (Página 23, linhas 1 a 6, 10 a 12,17 e página 24, linhas 1 a 3)
“Em 1935, com a Lei Wagner, os sindicatos ganharam a sua primeira grande vitória jurídica. (…) O rebanho tolo estava a obter vitórias legislativas (…) as pessoas estavam a organizar-se, quando deviam estar atomizadas, segregadas e desacompanhadas (…) mais do que espectadores da acção (…)" (Página 24, linhas 7 a 18)
“Os negócios prepararam uma resposta de longo alcance. (…) A comunidade de negócios tem o controlo dos media e recursos imensos (…) Fórmula Mohawk Valley, aplicada vezes sem conta para acabar com greves (…) mobilizando a opinião da comunidade com conceitos vazios e insípidos como americanismo.“ (Página 24, linhas 22,23 e página 26, linhas 20 a 25)
“O problema de palavras de ordem de relações públicas como Apoiem as nossas tropas é que não querem dizer nada. (…) Claro que existe uma verdadeira pergunta que não é feita explicitamente. (…) Apoia a nossa política? Mas não se pretende que as pessoas pensem sobre essa pergunta. É esse o objectivo da boa propaganda. Pretende-se criar uma palavra de ordem com que não só ninguém possa estar em desacordo, como até com que toda a gente concorde. Ninguém sabe o que significa, precisamente porque não significa nada. A sua grande importância provém da sua capacidade de afastar as pessoas de qualquer pergunta que signifique alguma coisa.“ (Página 27, linhas 10 a 24)
“As pessoas que trabalham na indústria das relações públicas (…) estão a tentar induzir à aceitação dos verdadeiros valores. (…) têm uma concepção do que deve ser a democracia: um sistema em que a classe especializada esteja treinada para estar ao serviço dos senhores, das pessoas que dominam a sociedade. O resto da população deve ser privada de qualquer forma de organização, porque a organização só traz complicações.“ (Página 28, linhas 10 a 20)
“O rebanho tolo é um problema. Conseguiu-se impedir o seu tropel e o seu fragor. Conseguiu-se distrai-lo. (…) Conseguiu-se também manter as pessoas devidamente assustadas, porque se não estiverem devidamente apavoradas, aterrorizadas com toda a espécie de males que estão em vias de destruí-las por dentro, por fora ou qualquer lado, podem começar a pensar, o que é muito perigoso…“ (Página 29, linhas 14 a 25)
“Habitualmente, a população é pacifista (…) As pessoas não vêem razão para se envolverem em aventuras no estrangeiro, para matar e torturar. Por isso, é preciso espevitá-las (…) é preciso aterrorizá-las.“ (Página 33, linhas 2 a 8)
“O rebanho tolo nunca está suficientemente domesticado, pelo que há que lutar constantemente. Nos anos trinta do século passado levantou-se outra vez e foi derrubado. Nos anos 60 verificou-se outra vaga de dissidência. (…) A classe especializada chamou-lhe a crise da democracia. (…) É preciso obrigar a população a regressar à apatia, à obediência e à passividade, que é o seu estado natural. (…)“ (Página 35, linhas 24 a 26, página 36, linhas 1 a 4, 13 a 15)
“Síndroma do Vietname (…) Norman Podhoretz definiu-a como inibições doentias quanto ao uso da força militar. (…) as pessoas simplesmente não percebem porque é que se deve andar por aí a torturar e a matar pessoas e a atirar-lhes bombas. (…) É necessário inculcar nas pessoas o respeito pelo valor militar.“ (Página 37, linhas 3 a 14)
“É também necessário falsificar completamente a História. (…) para fazer parecer que quando atacamos e destruímos alguém estamos, na realidade, a proteger-nos de importantes agressores e monstros… (…) Houve um enorme esforço desde a guerra do Vietname para reconstruir a História desse conflito. (…) Demasiadas pessoas começaram a perceber o que realmente se passava. (…) Isto era mau. (…) Os intelectuais de Kennedy chamaram-lhe defesa contra agressão interna no Vietname do Sul. (…) Era necessário fazer disto a imagem oficial e bem assimilada e funcionou muito bem. Quando se tem total controlo sobre os media e o sistema educativo e quando os meios académicos são conformistas, a partida está ganha.“ (Página 39, linhas 1 a 12, página 40, linhas 1 a 8)
“Apesar de tudo isto, a cultura dissidente sobreviveu. Cresceu bastante depois dos anos 60. (…) Na década de 70 (…) apareceram importantes movimentos populares: o movimento pelo meio ambiente, o movimento feminista, o movimento anti nuclear e outros. Na década de 80, verificou-se mesmo uma ainda maior expansão dos movimentos de solidariedade, o que era algo de novo e de importante na história da dissidência, pelo menos da norte-americana, mas provavelmente da dissidência mundial. (…) Tudo isto são sinais do efeito esclarecedor, apesar de toda a propaganda, apesar de todos os esforços para controlar o pensamento e fabricar consentimentos. Cresceu o cepticismo relativamente ao poder e mudaram as atitudes em relação a muitíssimos assuntos. (…) as pessoas descobrem que não estão sozinhas, que há outras pessoas que pensam da mesma maneira. (…) Isto tem de ser ultrapassado, mas ainda o não foi.“ (pág. 43, linhas 1 a 19, pág. 44, linhas 20 a 26, pág. 45,linha 26, pág. 46, linhas 1 a 14)
“Na realidade, existem problemas sociais e económicos cada vez maiores, talvez catastróficos. Ninguém instalado no poder tem qualquer intenção de fazer seja o que for a respeito desses problemas. (…) Nestas circunstâncias, é preciso distrair o rebanho tolo, porque, se começa a saber disto, pode não gostar, pois é ele que vai sofrer (…) É preciso fazê-lo recear inimigos. (…) Era costume haver um sempre disponível: os russos. (…) Foi preciso inventar novos inimigos (…) Apareceram assim os terroristas internacionais, os narcotraficantes, os árabes loucos, e Saddam Hussein, o novo Hitler, em vias de conquistar o mundo. (…) Depois consegue-se uma brilhante vitória sobre Granada, Panamá ou alguns outros exércitos indefesos do terceiro mundo… (…) Esta é uma das maneiras pela qual se pode evitar que o rebanho tolo preste atenção ao que está realmente a passar-se à sua volta e se mantenha distraído e sob controlo. (…) Há sempre uma ofensiva ideológica que constrói um monstro quimérico e depois campanhas para o esmagar. Não se pode lá ir se o monstro puder ripostar. Seria muito perigoso. Mas se se tiver a certeza de que o monstro será esmagado, então talvez se possa derrubar esse e soltar outro suspiro de alivio.“ (pág.47,linhas 7 a 11,pág. 48,linhas 10 a 22, pág.49,linhas 7 a 25, pág.50,linhas 10 a 16)
“Esta guerra mostra como resulta um sistema de propaganda que funcione bem. As pessoas podem acreditar que quando usamos a força contra o Iraque e o Koweit é mesmo porque realmente observamos o principio de que a ocupação ilegal e as violações dos direitos humanos devem ser confrontados com a força. Não percebem o que é que isso significaria se esses princípios fossem aplicados ao comportamento dos Estados Unidos. Trata-se de um triunfo de um tipo de propaganda bastante espectacular. (…) Em Agosto, voltámo-nos repentinamente contra Saddam Hussein, depois de, durante muitos anos, o termos favorecido.“ (Página 59, linhas 1 a 11, página 60, linhas 16 a 19)
“Quando os mísseis Scud atingiram Israel, ninguém nos jornais aplaudiu. (…) No fim de contas, os argumentos de Saddam Hussein são tão bons quanto os de George Bush. (…) Saddam Hussein diz que (…) não pode deixar Israel anexar os Montes Golãs e Jerusalém Ocidental, contra a decisão unânime do Conselho de Segurança. (…) Não pode apoiar a agressão.. Israel ocupa o sul do Líbano desde 1978, violando as resoluções do Conselho de Segurança, o que ele recusa aceitar. (…) as sanções não podem resultar porque os Estados Unidos as vetam. As negociações não podem resultar porque os Estados Unidos as bloqueiam. Para além da força, que é que mais existe? Esteve à espera durante anos. (…) Alguém na imprensa se referiu a isto? (…) Mostra que a fábrica dos consentimentos está trabalhar.“ (Página 68, linhas 11 a 25, página 69, linhas 4 a 26)
“É a escolha entre querer viver numa sociedade livre ou querer viver numa espécie de totalitarismo autoimposto, com o rebanho tolo marginalizado, dirigido, aterrorizado, gritando palavras de ordem patrióticas, receando pela vida e admirando com reverência o líder que o salvou da destruição, enquanto as massas educadas marchavam quando as mandavam e repetiam as palavras de ordem que era suposto repetirem, ao mesmo tempo que a sociedade do país se deteriora. Acabamos como um estado policial mercenário, à espera de que outros nos paguem para subjugar o mundo. È a escolha que cada um tem de fazer. A resposta a estas questões está principalmente nas mãos de pessoas como você e eu.“ (Página 72, linhas 11 a 25)


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