Hoje falo eu - Maria Eulália Domingos

 O Enigma do Cisne Negro

Reflectindo com Nassim Nicholas Taleb

Maria Eulália Domingos


“As árvores não são círculos; as linhas rectas quase não existem em parte nenhuma. A Mãe Natureza não frequentou aulas de geometria no liceu, nem leu as obras de Euclides de Alexandria. A sua geometria é irregular, mas imbuída de uma lógica própria que é fácil de perceber.”

In Os Cisnes Negros (2008:329)


Não, caro leitor, não vamos falar dos belos e elegantes cisnes que ao longo dos tempos têm inspirado artistas das mais diversas áreas e que certamente lhe vieram à mente com a leitura do título.
O autor, Professor de Ciências da Incerteza na Universidade de Massachussets, dedicou parte da sua vida ao estudo aprofundado de questões de sorte, incerteza, probabilidade e conhecimento e, perante a imprevisibilidade do surgimento de determinados factos,  interroga-se sobre a fragilidade do nosso conhecimento.
Comecemos pelo princípio: há muitos, muitos anos, antes da descoberta da Austrália, as pessoas do Velho Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos (2008:15). Durante séculos apenas foram avistados milhões de cisnes brancos pelo que era convicção fortemente enraizada que todos os cisnes eram brancos.
Com a surpresa do avistamento do primeiro cisne negro ter-se-ão confrontado com a perplexidade. Ou seja, uma única observação invalidou uma afirmação geral sustentada em séculos de avistamento de cisnes brancos.
Chegados aqui, o autor transporta este problema de cariz logico-filosófico para uma realidade empírica a que passou a chamar Cisne Negro (com maiúscula, por sua iniciativa), e que são acontecimentos que, tal como os cisnes negros para os nossos antepassados, nos deixam perplexos. Acontecimentos estes que reúnem os seguintes atributos: são atípicos, encontram-se fora das nossas expectativas normais, porque nada que tenha ocorrido antes, aponta de forma credível para essa possibilidade. Revestem-se de um enorme impacto e, apesar do seu carácter desgarrado, levam-nos à construção de explicações para a sua ocorrência depois de o facto ter tido lugar, tornando-o compreensível e previsível.
Segundo Taleb, o surgimento de Cisnes Negros tem vindo a aumentar com a crescente complexificação do mundo e é por isso que apesar de todo o conhecimento que o homem possui, não foi possível prever o que ocorreu, por exemplo, em 1914, nem a ascenção de Hitler e a subsequente guerra,  nem a queda do império soviético, entre outros.
Mais próximo de nós e ainda segundo o autor, o êxito do You Tube é um Cisne Negro. O acontecimento do 11 de setembro é outro Cisne Negro. Mas porque razão não temos consciência dos cisnes negros antes da sua ocorrência? Porque os seres humanos “estão programados para apreender coisas específicas quando deviam concentrar-se em generalidades”.
Atendendo a que muitos Cisnes Negros podem ser desencadeados e exacerbados pelo facto de não serem esperados pode explicar que a lógica dos Cisnes Negros é a relevância daquilo que não sabemos em detrimento daquilo que sabemos.
Pensemos no ocorrido no passado dia 11 de Setembro de 2001: se fosse previsível no dia 10 de Setembro, não teria ocorrido. Se tal possibilidade tivesse merecido qualquer atenção, as torres gémeas teriam sido sobrevoadas por bombardeiros que as protegeriam de qualquer ataque.
Ouçamos o Autor: “a incapacidade de prever situações atípicas pressupõe a incapacidade de prever o rumo da história, dada a importância destes acontecimentos na própria dinâmica dos acontecimentos “(2008:18).
Sendo imprevisíveis, os Cisnes Negros  forçam-nos a reajustarmo-nos à sua existência e não a tentar antecipá-los.
Podemo-nos concentrar na tentativa de reunir Cisnes Negros positivos (que resultaram em casos felizes) maximizando a nossa exposição aos mesmos. Em alguns domínios, como  no domínio das descobertas científicas há pouco a perder e muito a ganhar com um acontecimento raro. Alguns de nós já se depararam com a alegria da “serendipity”, a serendipidade como familiarmente lhe chamamos na Escola, e que resulta na descoberta imponderável e ocasional de uma qualquer realidade aquando das nossas investigações e que, desculpe-se a ousadia, poderíamos chamar de Cisne Negro (?)…
De uma forma resumida, podemos afirmar que este livro clama contra  muitos dos nossos hábitos de pensar, contra o facto do  mundo se encontrar dominado pelo extremo, o desconhecido e o altamente improvável (à luz do conhecimento actual). Passamos o tempo em inúteis discussões, apenas concentrados no que conhecemos e no que se repete.
David Hume, a quem Taleb recorre a propósito do problema da indução, dizia que o ser humano se habitua a acreditar que as coisas são como sempre as viu, mas nada impede que o não sejam…
Temos de encarar o mundo com a certeza de que não há como sabermos de tudo. Há desconhecidos, desconhecidos que fogem ao nosso controlo ou como diz Shakespeare, pela boca do seu Hamlet: Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia!
Vejamos, será esta Pandemia um Cisne  Negro?

Boa leitura.

 

23 de Fevereiro de 2021


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