Hoje falo eu - Jorge Monteiro
No passado dia 24 de janeiro de 2021, pela décima vez após o 25 de Abril, os portugueses elegeram o seu presidente da República. Sem surpresa, Marcelo Rebelo de Sousa foi reconduzido no cargo e estará em Belém para mais um mandato de cinco anos.
Concorreram sete candidatos. Marcelo teve 2.534.734 votos, mais que em 2016 onde teve 2.411.925 portugueses a votar em si. Seguiram-se Ana Gomes (541.556 votos) e André Ventura (496.773 votos).
Análise mais quantitativa, comparativa com atos eleitorais similares, ficará para uma próxima crónica. Hoje teremos uma abordagem mais analítica, resisto a chamar-lhe "qualitativa".
Comecemos por dividir a noite pós eleitoral em três categorias: vencedores, pseudo vencedores e perdedores ou derrotados se assim preferirem designar não apenas os que foram a votos e se saíram mal, bem como outros que, uns na sombra outros debaixo dos holofotes que criaram para si tentaram, como diz o povo, na sua imensa sabedoria de "experiências feita" "sacudir a água do capote".
Vencedores temos, aparentemente, três, mas apenas um pode colher a 100% os louros da sua vitória: Marcelo Rebelo de Sousa. Dispensou apoios partidários, diria mesmo que os dispensava e deles procurava "fugir a sete pés". Marcelo capitalizou a sua imagem de cidadão preocupado e omnipresente, tantas vezes em excesso, e nem mesmo uma, usando um termo seu, "irritante" colagem ao governo e a António Costa lhe empalideceu a aureola de "santidade". O povo já percebeu que em alturas de crise, Costa e o seu executivo se manifestam incapazes - lembremos, por exemplo, as duas tragédias dos incêndios em 2017 - enquanto Marcelo "arregaça as mangas" e vai ao terreno. Com a pandemia que vivemos e a inexistência de oposição, o povo decidiu dar o seu voto de confiança ao "homem das selfies", logo agora que a sua "presidência de abraços" está, obrigatoriamente, suspensa. Mas algo me diz que, passada esta pandemia, o mandato terá cinco anos como bem sabemos, Marcelo deverá vir a ser mais "fiscalizador" da ação governamental, como aliás é normal nos segundos mandatos. Não chegará a extremos, como fazer a vida negra a António Costa como Mário Soares fez a Cavaco Silva, mas não será tão "cooperante", até porque, passada a pandemia, adivinham-se tempos difíceis e Marcelo não quererá ficar para a história sendo cúmplice, sequer conivente, com o que aí vem...
A segunda vencedora foi Ana Gomes. Sem apoios partidários, o PS, por várias razões, tinha de a ignorar e o Bloco de Esquerda, por errada opção estratégica em manter candidata própria, também "não se chegou à frente". Mas Ana Gomes, mulher inteligente e respeitada interna e externamente, ganhou de duas maneiras. Não tanto em termos numéricos, mas sim em termos de respeitabilidade. Não teve medo de avançar sozinha e, ao ficar á frente do demagogo populista André Ventura, travou-lhe um pouco a bazófia. Mas, o que é mais importante, marcou território para daqui a cinco anos. Aí vamos ver se o PS vai ter coragem de ignorar a "incómoda" Ana Gomes. Também depende de quem suceder a Costa que não deverá aguentar a inevitável grave crise, sobretudo económica, que se seguirá á pandemia. Sobretudo se, à semelhança do "Plano de vacinação", com a chegada da famosa "bazooka dos milhões de Bruxelas", a "rapaziada socialista" começar a fazer das suas...
Se for Fernando Medina, o autarca que tem andado entretido a destruir Lisboa, será mais complicado, mas o edil lisboeta é homem para "engolir sapos" se ganhar alguma coisa com isso. Se for Pedro Nuno Santos aí Ana Gomes terá mais probabilidade de ter o apoio do PS. Não será crível a reedição de um episódio de triste memória para os portugueses, pois abriu as portas de Belém ao sinistro Cavaco Silva, como aquele que José Sócrates e Mário Soares protagonizaram quando, para ostracizar Manuel Alegre, o popular "bochechas", já retirado, acabou por avançar para as eleições presidenciais. Tal divisão de votos e, pior, má imagem de um PS dividido apenas "favoreceu" o homem que, por ter vergonha do nome da terra onde nasceu, até conseguiu mudar-lhe o nome. Alguém ouviu falar em Poço de Boliqueime? Pois, agora é só Boliqueime.
Assim, Ana Gomes, tal como Jorge Sampaio fez no passado, já se antecipou e fica agora com o PS o "incómodo" ónus de ter de decidir entre dar-lhe o seu apoio ou... não! Não haverá Marcelo e aí quem é que o PS irá apoiar?
O terceiro vencedor, ainda que parcialmente, foi André Ventura. Se, daqui a cinco anos, ainda existir politicamente - situação altamente duvidosa - não será, com toda a certeza, o candidato da direita como tanto aspira. Nesse espectro já surgem, embora não ainda assumidos, dois nomes: Luís Marques Mendes, que seguindo as pisadas de Marcelo está em pré campanha eleitoral televisiva há anos, e Pedro Passos Coelho em torno do qual se começa a criar uma "vaga de fundo" para o trazer de volta à ribalta. Arriscaria um terceiro nome, mas não lhe vejo grandes apoios, o famoso "Paulinho das Feiras" que anda por aí a tentar mostrar capacidades (televisivas) que até nem tem...
Ventura, não tem, nem nunca terá, perfil de estadista nem conseguirá mobilizar o apoio institucional da direita partidária. Ao fim e ao cabo, o "fenómeno Ventura" não é novo na nossa vida política pós 25 de Abril. O que Ventura conseguiu, ainda que longe da sua meta, foi capitalizar votos de protesto, como outros já fizeram. A maioria dos eleitores não votou em Ventura, mas sim contra o sistema.
Lembramo-nos todos do que aconteceu com Marinho e Pinto, Manuel Sérgio - que é, ao contrário dos outros, um homem sério - e o partido dos reformados e o PRD, alegadamente de inspiração "eanista". Conseguiram chegar a uma votação entre 15% a 20%, faixa eleitoral de habituais descontentes que se deixam enganar, mas apenas á primeira... Depois, com o tempo, mudam o seu sentido de voto para outro demagogo populista ou para o partido que não está no poder na altura. Há muito tempo que em Portugal ninguém ganha eleições: há é alguém que as perde, coisa muito diferente! Santana Lopes perdeu para José Sócrates que perdeu para Passos Coelho que perdeu para António Costa...
Perdão! Faço aqui um parêntesis: Passos Coelho até ganhou a António Costa, embora tivesse perdido,, nas eleições para o Parlamento Europeu, para António José Seguro. Mas foi "poucochinho", como disse na época o atual líder socialista que acabou por tomar o poder de assalto com a famosa "geringonça", isto depois de ter espetado a faca nas costas de Seguro nas "maquinações" do Largo do Rato. Nisso, Costa é bom: na baixa política, na chicana, nas negociatas, no dar o dito por não dito, no fugir a responsabilidades e atribuir a culpa dos seus atos a outros...
Ventura é um pouco assim. mas não conseguirá, para já, capitalizar o seu discurso demagógico para o CHEGA, que já vive com graves convulsões internas e demissões. Um pouco como Assunção Cristas que, "sozinha", obteve um excelente resultado nas eleições à autarquia lisboeta e, depois, se afundou com o CDS-PP. Uma coisa é ter algum carisma e ter um discurso que prima pela "negatividade", pela crítica destrutiva, outra é assumir cargos e estar á sua altura. Ventura diz o que acha que as pessoas querem ouvir. Anda a reboque das sondagens. Muda muito de opinião, por isso lhe chamam "troca-tintas", se sentir que isso lhe traz votos. Porquê atacar os ciganos? Porque sentiu que a maioria das pessoas, embora o possam negar, odeiam esta comunidade associada a diversas atividades criminais. Se, na sequência da alegada culpabilização da China na presente pandemia, sentisse que o povo odiava e responsabilizava os chineses pelos maus tempos que vivemos, era contra eles que viraria a sua oratória. Não sei mesmo se não ambicionaria mais que isso. O seu histerismo oratório faz lembrar muito Adolf Hitler. Proponho um exercício: visionem um discurso de Ventura com e sem som e, se tiverem oportunidade, façam o mesmo para um de Hitler. Vão ficar surpreendidos. Creio que o Ricardo Araújo Pereira já fez isso no seu programa "Isto é gozar com quem trabalha".
Falemos agora dos pseudo vencedores: o PS de António Costa e o PSD de Rui Rio. A forma como se colaram à vitória de Marcelo é patética. Não constitui novidade. É a velha tática do "se não podes vencê-los, junta-te a eles". Triste e esclarecedor sobre as capacidades e valores de Costa e Rio... Também incluo o Tino de Rans nesta categoria. Gosta de aparecer e dar os seus bitaites, é um "idiota de serviço" que é como o "Melhoral não faz bem, mas também não faz mal". As pessoas até gostam do seu ar simplório, acham-lhe graça, mas, claro. não o levam a sério...
Finalmente os que perderam: PCP e Bloco de Esquerda. Não falo do João Ferreira e da Marisa Matias, dois cidadãos válidos com mais que provável futuro político, mas sim dos partidos que os lançaram. O Bloco devia ter apoiado Ana Gomes e poupado Marisa ao vexame eleitoral que se adivinhava e o PCP tarda em se renovar. Como se vangloriou Ventura, até no Alentejo ganhou ao PCP. Como? Com os votos dos aldeões que odeiam os ciganos que, para serem politicamente corretos, os partidos institucionais não ousam atacar... Mas Ventura sabia muito bem que isso lhe daria/deu votos!
Uma palavra final para Tiago Mayan, uma candidatura simpática com ideias e um discurso civilizado, na linha do que a Iniciativa Liberal - o Bloco de Direita? - nos tem habituado. Este, sim, poderá capitalizar votos da sua candidatura para o partido que o lançou na corrida eleitoral, desde que seja candidato. Já o antevejo com deputado na AR, eleito pela Iniciativa Liberal pelo círculo do Porto. Isto se não acontecer, como com Adolfo Mesquita Nunes, e se tornar membro de alguma empresa pública ou privada com interesses "muito próprios"... Espero que não...
Para a semana há mais!
Sites de consulta:
PORDATA - Eleições Presidenciais (2021) - Resultados
MAI - Eleições Presidenciais (2021) - Resultados
WIKIPEDIA - Recordes e estatísticas de eleições em Portugal
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