Hoje falo eu - Maria Eulália Domingos

Narrativa de um olhar

reflectindo com Primo Levi

Maria Eulália Domingos

 

«Recomendo-vos estas palavras.

Esculpi-as no vosso coração

Estando em casa, andando pela rua,

Ao deitar-vos e ao levantar-vos;

Repeti-as aos vossos filhos….»

 

In Se Isto é Um Homem (2010:7)

 

Nascido em 31 de Julho de 1919, Primo Levi, membro da resistência italiana, é detido pelas forças alemãs. Depois de ter confessado a sua ascendência judaica foi deportado para Auchwitz, na noite de 13 de Dezembro de 1943, onde permaneceu até finais de Janeiro de 1945. Químico de formação, foi durante a sua permanência em Auchwitz que a sua vocação de escritor foi despertada. O livro seria publicado dois anos depois de ter sido libertado porque entendeu que era preciso manter a lembrança do que aconteceu.
Na sequência da sua detenção, em Janeiro de 1943, Primo Levi foi levado para um campo de prisioneiros onde se juntou a um numeroso grupo de judeus italianos de que constavam famílias inteiras com o mesmo destino: Auschewitz.
Desconhecendo completamente o que lhes estava reservado, e no meio da confusão gerada pela falta de informação, os prisioneiros receberam a notícia de que iriam partir. Sabiam que a viagem iria durar quinze dias, mas desconheciam o destino. No final de um dia igual a todos os dias no campo, «caiu a noite, uma noite tal que se percebeu que olhos humanos não a poderiam presenciar e sobreviver» (Levi, 2010:13). Ao começo da noite, uns rezaram outros embriagaram-se. As mães não dormiram para terem tempo de preparar a viagem. Deram banho aos filhos. Com desvelo lavaram a roupa e estenderam-na no arame farpado para que o vento a secasse durante a noite. Como se provido de uma câmara minuciosa, o olhar do autor ganha amplitude e “mostra-nos” os preparativos para a viagem: os brinquedos arrumados, as almofadas, «as cem pequenas coisas que sempre fazem falta».
Depois de carregados nas camionetas, chegaram ao comboio e viram «um dos famosos comboios militares alemães, aqueles que não voltam…» (2010:15). Confrontados com a realidade brutal - «Desta vez somos nós que estamos lá dentro» (Idem), durante mais de quatro dias o seu olhar é cativo de uma paisagem de agonia - o interior de um vagão de mercadorias fechado por fora e apinhado de homens, mulheres e crianças sofrentes pela ausência de quase tudo o que permite manter a vida.
A palavra Auschwitz soou-lhes como um destino, um lugar na terra.
A primeira paragem ocorreu durante outra noite, «num cais iluminado por holofotes» (2010:17), para separar os saudáveis. Os outros, «a noite engoliu-os, pura e simplesmente» (2010:18); o último olhar que retiveram do grupo de amigos e familiares foi «uma massa escura na outra ponta do cais» (2010:19).
Na cerrada escuridão do interior do camião que os conduz, Primo Levi apercebe-se do destino que os espera e surpreende-se que o soldado que os escolta não lhes dirija as palavras de Caronte: «ai de vós, almas perdidas» (Ibidem).
Isto é o inferno. Arbeit Macht Frei. «Um local grande e vazio, e nós, cansados de estar de pé, com uma torneira a pingar água que não se pode beber, esperamos algo, sem dúvida terrível e nada acontece […]. Despidos de pensar, é como estar já morto»; têm que tirar a roupa e os sapatos - e é assim que são atingidos pelo frio gelado, enquanto aguardam que lhes levem a última marca identitária: o cabelo e a barba.
Desconstruídos entram no campo de trabalho de Monowitz, vestidos com roupa e sapatos que não são os seus. Ninguém ousa olhar para o outro, mas todos se vêem.
Já não é possível ir mais baixo, chegaram «ao fundo […] se falarmos não nos escutarão, e se nos escutassem não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome» (2010:25).
Um número, indelevelmente marcado no pulso, passou a ser identificação necessária. O hábito de um olhar treinado no passado teimosamente recorda a nova realidade. Nada mais é que um invólucro: «só um homem é digno de ter um nome» (2010:43).                                                                           
Ao escutar o som de uma fanfarra chega um alívio que a vista dos companheiros que regressam do trabalho dissipa. Em vão procuram uma voz ou um rosto «um guia» (2010:29).  

Atormentado pela sede, a única ajuda que recebe é uma proibição «Não bebas água, camarada» (2010:30). Curiosamente recordará para sempre o rosto bondoso do prisioneiro que depois deste conselho o abraçou.
«Todas as horas de luz são horas de trabalho [...] Esta será a nossa vida […] sair e voltar; trabalhar, dormir e comer, adoecer, curar-se ou morrer» (2010, 34-35).
Ante o intermitente raciocínio dos companheiros - uns convenceram-se de que o fim estava próximo, outros de que a salvação era possível.
Primo Levi narra o limite da perda de ipseidade «até o meu corpo já não me pertence» (2010:36), e a recusa do encontro dos domingos à noite com os outros compatriotas: «porque era demasiado triste voltarmos a encontrarmo-nos cada vez menos numerosos, mais deformados e mais macilentos […] e, para além disso, reencontrar-nos significaria recordar e pensar, e era melhor não o fazer» (Idem).
A iniciação começou com a confusão das línguas: «estamos mergulhados numa babel, em que todos gritam ordens e ameaças em línguas que nunca ouvimos antes, e ai de quem não percebe à primeira» (2010:37).
A distribuição do pão altera a percepção da realidade: «É uma alucinação quotidiana […] é tão irresistível que, muitos de nós, depois de muitas discussões a dois, acerca da nossa evidente e constante desgraça, trocamos as rações, mas então a ilusão reaparece em sentido contrário…». O pedaço de pão, que na mão dos companheiros parece maior, passa a ser a moeda de troca e motivo de discussão.
O momento da higiene coloca outra ilusão: «…lavar-se todos os dias com a água turva do lavatório fedorento é praticamente inútil para os fins de limpeza e de saúde; mas é muito importante como sintoma de um resto de vitalidade, e necessário como instrumento de sobrevivência moral» (2010:39).
Carregar sacos de carvão não permite estabelecer qualquer diferença entre quem se lava e quem não se lava, além de que o tempo gasto na dita higiene prefere gastá-lo fechado em si «ou então olhar o céu e pensar que talvez esteja a vê-lo pela última vez» (2010:40).
Um companheiro “mostra-lhe” que é necessário reagir «exactamente porque o Lager é uma grande máquina para nos reduzir a animais, nós não devemos tornar-nos animais […] Que somos escravos, privados de qualquer direito, expostos a qualquer injúria, condenados quase com certeza à morte, mas que uma faculdade nos restou […] a faculdade de negar o nosso consentimento. Temos, portanto, sem dúvida, de lavar a cara sem sabão, na água suja […] Temos de caminhar direitos sem arrastar as socas, certamente não em homenagem à disciplina prussiana, mas para nos mantermos vivos, para não começarmos a morrer.» (Idem). É a partir disto que uma nova construção se torna possível.
Um dia chegou o sol. Foi um bom dia porque nunca se tinham visto ao sol «Olhamos em redor, como cegos que readquiriram a vista […] Se não fosse a fome!» (2010:75).
Mas não foi só um dia de sol, além do rancho normal, haveria mais cinquenta litros de sopa com que puderam saciar-se. «Durante umas horas, podemos ser infelizes à maneira dos homens livres» (2010:78).
Será útil guardar alguma memória desta condição humana anormal? «Nenhuma experiência humana é privada de sentido e indigna de ser analisada, e que, pelo contrário, deste mundo particular de que estamos a falar se podem tirar valores fundamentais, mesmo que nem sempre positivos […] uma gigantesca experiência biológica e social» (2010:89).
O exame de química. «Apercebem-se do grotesco e do absurdo da prova que nos pedem, a nós, que já não estamos vivos, a nós, que já estamos meio dementes, a espera esquálida do nada?» (2010:105).
Quando se encontra no escritório de um dos professores que o examinará, Primo Levi observa a limpeza e arrumação reinante e tem a sensação de que se tocasse em qualquer coisa a deixaria suja. Sentiu-se imundo, e quando trocou um olhar com o professor sentiu que «aquele olhar não aconteceu entre dois homens […] Não há comunicação possível» (2010:108).
Tem a sensação de que o professor não acredita quando lhe diz que se licenciou em Turim, que obteve summa cum laude no seu exame de licenciatura. Olha as mãos sujas e feridas, a roupa andrajosa e ele próprio não acredita nas suas palavras. Contudo, as respostas fluem, de novo sente a “febre dos exames” e a espontânea mobilização de todas as faculdades lógicas. As Medidas de Constantes Dieléctricas suscitam o interesse do examinador. É o rememorar do seu saber que, perante si próprio, atesta a sua identidade e reinicia a ligação ao passado. O início de uma nova construção de si.
Convocado por outro companheiro para o ajudar a trazer sopa da cozinha, ao percorrer o caminho sob a luz e o calor do sol, recorda o Verão e a praia. O ar fresco fá-lo sentir-se bem. O companheiro quer aprender italiano e Primo Levi, sem saber porquê, recorda o Canto de Ulisses para lho recitar. Explica quem é Dante, a Divina Comédia, como se divide o Inferno. Atento, o companheiro escuta-o. Naquele momento são dois seres humanos preocupados com as palavras de um poema.
De algum modo identificam-se com os sentimentos de Ulisses: “Ao mar, pois, eu me fiz, mar alto aberto.”
«É atirar-se a si próprio para além de uma barreira, nós conhecemos bem este impulso. O mar aberto: Pikolo viajou pelos mares e sabe o que significa, é quando o horizonte se fecha sobre si mesmo, livre, direito e simples, e só permanece o cheiro do mar: coisas doces ferozmente longínquas» (2010:115).
Aos poucos, a memória que (re)começou a funcionar quando sujeito ao exame de química, vai estabelecendo elos com o passado. Só agora se apercebe do verdadeiro sentido das palavras e é com veemência que recita a Pikolo o verso:          

                         «Pensai na vossa origem:
Não fostes criados para viver como animais,
                         Mas para seguir virtude e a ciência.»
Foi «como se eu também o ouvisse pela primeira vez: como um tocar de trompete, como a voz de Deus […] esqueci-me de quem sou e onde estou» (2010:116).
Através da poesia alcança redenção. Encontra o homem que já foi. Num gesto que ele interpreta como uma manifestação de bondade, o amigo pede-lhe que repita. Quem sabe também Pikolo tenha recebido a mensagem que diz respeito a todos os atormentados.

 
Boa Leitura.
2 de Março de 2021                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              

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