Hoje falo eu - Maria Eulália Domingos

 A Paixão Segundo G.H.

Reflectindo com Clarice Lispector

Maria Eulália Domingos

 

 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.

In A Paixão Segundo G.H.

C. L

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia ainda antes da anexação feita pela Rússia em 1922. Logo a seguir ao seu nascimento, e na sequência dos pogroms  contra os judeus, os pais fugiram para o Brasil onde Clarisse Lispector cresceu e estudou.

Narrado na primeira pessoa, no livro que hoje propomos, A Paixão Segundo G. H., a autora dá conta da sua busca incessante e simultânea pelo real e pelo divino, desvelando  a condição humana. É a  partir das trivialidades do dia a dia que, numa peregrinação interior, vai desvendando as angústias da sua existência.

Para além de sabermos que a personagem do romance é escultora, que mora  numa elegante cobertura (que a reflecte) de um edifício de treze andares, no Rio de Janeiro, e que despediu a empregada, de quem, de resto, mal se lembra, pouco mais nos é dado saber sobre esta complexa mulher que gostava de fazer arrumações. Sem nome, apenas as iniciais G.H. lhe revelam a sua ligação com o mundo. «É suficiente ver no couro de minhas valises as iniciais G.H., e eis-me.» (2013:19).

Sabemos que vivera muitos factos, como  se tivesse pressa  de ficar livre do seu «destino humano, menor» para ficar livre de buscar a sua tragédia: «Minha tragédia estava em alguma parte. Onde estava o meu destino maior? Um que não fosse apenas o enredo da minha vida. A tragédia – que é a aventura maior – nunca se realizara em mim» (2013: 20).

Sem sabermos o que a angustia ou de que paixão trata o livro, assistimos à narrativa poética de uma confissão enigmática e é no meio da perplexidade existencial que a encontramos. Sente-se perdida e desenquadrada do mundo, perdeu algo que era  “essencial, e que já não é mais.” (2013:9). Como se tivesse perdido uma terceira perna que a impossibilitava de andar, mas que a tornava estável. Com essa perda, voltou a ser alguém que nunca tinha sido e voltou a ter o que nunca tivera: as duas pernas, condição para poder caminhar. Contudo, sente-se desorganizada, sem saber quem é, com medo de não pertencer a um sistema. Mas sabe que tem que ir ao encontro da sua liberdade, entregar-se ao que não entende, ficar «à beira do nada». (2013:14). «Será ir apenas indo» como quem está prestes a adormecer e se deixa tomar pelo desconhecido. «Essa coisa corajosa que será entregar-me, e que é como dar a mão á mão mal-assombrada de Deus, e entrar por essa coisa sem forma que é o paraíso. Um paraíso que não quero!» (idem).

Contudo, sabe que enquanto escrever e falar vai ter que fingir que alguém lhe está a segurar a mão, pelo menos no começo.

Sabe que precisa de uma mão,  apenas uma mão, a mão de alguém sem rosto. Uma mão decepada que não a assusta porque é uma invenção sua, invenção que “vem de uma tal ideia de amor”, uma mão desligada de um corpo que ela  não vê porque é incapaz de amar mais…não se sente à altura de imaginar uma pessoa inteira porque também ela não é uma pessoa inteira. Sabe que precisa  dessa mão para iniciar o caminho mas, logo que possa dispensá-la-á e seguirá sozinha e com horror por essa peregrinação interior até que a metamorfose se complete e o horror, que é ela diante dos factos, se transforme em claridade. Uma claridade que a assusta, mas  para a qual se sente fatalmente atraída.

Necessita da invenção desta presença e antecipa o momento em que puser o primeiro pé na primeira ausência de si. Sabe que nessa «hora última e tão primeira inventarei a tua presença desconhecida e contigo começarei a morrer até poder aprender sozinha a não existir, e então te libertarei» (2013:15). Por enquanto precisa desta presença porque é a sua única íntima organização. Sente-se  desamparada, precisa de aprender a existir e por isso se entrega: «para  que faças disso uma coisa alegre» (idem)

É na sequência de todos estes pensamentos que a encontramos, sozinha, vestida com um robe branco, no silêncio do seu elegante apartamento, atardada, à mesa do pequeno-almoço, no dia a seguir à empregada se ter despedido, antegozando o prazer de arrumar a casa para que, numa clara alusão ao mito da criação do mundo em sete dias…depois, «na sétima hora como no sétimo dia, ficasse livre para descansar e ter um resto de dia de calma.» (2013:26)

É com a disposição de  quem parte para uma grande limpeza que se dirige à saída de serviço e ao quarto que fora da empregada, o bas fond da casa, (2013:29) disposta a dar início a uma profunda arrumação, contudo, é com surpresa e algum desagrado que ao abrir a porta, quando esperava encontrar um quarto escuro, sujo e desarrumado, com um amontoado de jornais, deparou-se com  um “quadrilátero de branca luz “ limpo e vibrante como o de um hospital. A surpresa faz com que se demore a olhar cada canto, cada quadro, cada objecto; desagradada porque a empregada «numa ousadia de proprietária e sem lhe dizer nada, tivesse espoliado o quarto da sua função de depósito» (idem);  sentiu-se excluída da sua própria casa. Como um minarete, o quarto parecia estar acima do próprio apartamento. Coagida pela lembrança da empregada, quis lembrar-se do seu rosto, mas não conseguiu, apenas recordou  o seu nome: Janair. Foi então que se apercebeu do ódio silencioso e isento que a empregada lhe votara e que entendeu como uma falta de misericórdia. Inesperadamente recordou os traços do seu rosto que, descobriu sem prazer, serem traços de rainha. Apercebeu-se de que nunca vira Janair para além da sua forma exterior e de que fatalmente também assim fora vista.

Aquele quarto era o oposto do resto da casa: «era  uma violentação das minhas aspas, das aspas que faziam de mim uma citação de mim. O quarto era o retrato de um estômago vazio.» (20013:33). Nada, ali, tinha sido feito por ela e, até o sol, que no resto da casa vinha de fora para dentro, ali não parecia vir de fora, o quarto era lugar do próprio sol. Noite e dia estava sempre lá numa interioridade perfeita contrastante com a sua.

Desnorteada por não encontrar coisas sujas para limpar, sentiu-se irritada e fisicamente incomodada. Recordou de novo a criada,  a rainha africana, a estrangeira, a inimiga indiferente. Será que Janair a teria mesmo odiado ou seria ela que, sem sequer a ter olhado, a odiara? Sentiu repulsa e desalento e decidiu modificar tudo. Trazer para fora do quarto todas as coisas e despejar baldes e baldes de água para afogá-lo: «queria matar alguma coisa ali.» (2013:34). Só então o quarto se transformaria em seu e em si. Agora a sensação que tinha era a de ter entrado em nada. Mesmo lá dentro, sentia como se estivesse do lado de fora, como se pedaços de si tivessem ficado no corredor, «na maior repulsão de que eu já fora vítima: eu não cabia.» (2013:35)

Sufocada pela sensação de confinamento e restrição, sentiu falta da sua casa. Mas também aquele quarto era posse sua, fazia parte da sua casa. Embaraçada numa teia de vazios, não sabia por onde começar a arrumar, foi então que pousou o olhar no guarda-roupa; uma rachadura no tecto fez com que erguesse o olhar, tentando apossar-se um pouco mais daquele enorme vazio, convocando toda a sua interioridade e  desmoronando as suas certezas…

De novo olhou o  guarda-roupa estreito, de uma só  porta e da altura de uma pessoa, da sua altura; animou-se com a ideia da sua transformação depois da limpeza. Aproximou-se e tentou abrir a porta que esbarrava no pé da cama permitindo abrir apenas uma pequena brecha de onde saía o escuro de dentro. Aproximou o rosto e forçou-o a entrar na brecha. Sem ver nada, apenas sentiu o «cheiro quente e seco como o de uma galinha viva. Empurrando, porém, a cama para mais perto da janela, consegui abrir a porta mais uns centímetros. «Então, antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem.» (2013:36).

A entrada de G.H. num mundo mais profundo e íntimo provoca-lhe um sentimento de profunda náusea e um grito silencioso «ficara me batendo dentro do peito» (2013:37).

Para seu espanto e susto uma barata movia-se lentamente em direcção á fresta. No seu arcaico horror pelas baratas aprendera a adivinhar, mesmo à distância, as suas idades e perigos. A súbita descoberta de vida na nudez do quarto assustou-a como se descobrisse que o quarto morto era potente. «Tudo ali havia secado – mas restava uma barata» (2013:38).

Por instantes sentiu repulsa pelo quarto, contudo, tomada pela hostilidade, sentiu-se  estranha: «o quarto, com a sua barata secreta, é que me repelira» (idem).

Recordou as figuras desenhadas nos quadro da parede como vigias à entrada de um sarcófago, aludindo à morte, à sua morte existencial consubstanciada no mergulho, na escuridão do guarda fatos, como se este fosse do seu próprio esquife. Apercebeu-se então que a barata e Janair eram os verdadeiros habitantes do quarto. Não, não ia limpar o quarto, essa tarefa ficaria para a nova empregada.

Arrepiada, decide sair, tropeça e sente medo de cair naquele quarto de silêncio, sente  um nojo profundo que lhe tolhe os movimentos. Sente-se livre e ao mesmo tempo presa á experiência da procura de si. O confronto com a barata marca o início da sua metamorfose.

Recorda que em criança tivera conhecido «o sentimento de lugar (2013:39), quando era criança, inesperadamente, tinha a consciência de estar deitada numa cama que se achava na cidade que se achava na Terra que se achava no Mundo. Assim como em criança, tivera a noção precisa de que estava inteiramente sozinha numa casa, e que a casa era alta e solta no ar, e que esta casa tinha baratas invisíveis». Em criança, quando se localizava, ampliava-se, mas agora localizava-se auto-restringindo-se, não podia sair do espaço delimitado pelo pé da cama e a porta do guarda roupa. Sentiu-se encurralada pelo sol que «lhe ardia no cabelo da nuca, num forno seco que se chamava dez horas da manhã» (idem).

A delimitação do espaço corresponde ao intenso conflito interno que a angustia e do qual anseia sair. Num último esforço,  levou a mão à porta do guarda roupa para fechá-lo e abrir caminho, mas recuou de novo: lá dentro a barata movera-se. Prisioneira, com a  sensação do irremediável, sabia que só poderia sair dali se encarasse o perigo: «foi então que a barata começou a emergir do fundo. Antes o tremor anunciante das antenas» (2013:41). De forma decidida, encarou a barata que era parda e enorme. Sentiu o coração bater “como numa alegria”. Inesperadamente sentiu que tinha recursos que nunca, até ali, usara e uma potência latente. A assunção do grande medo, um medo maior que ela, transformou-se  em coragem: «o medo me aprofundava toda» (idem). Nunca até então  se sentira dona dos seus poderes e sentiu que era, finalmente era, o que quer que isso fosse.  Agradecida, ergueu a mão e, num só golpe fechou a porta sobre o corpo da barata. Consciente de que tinha provocado a morte, interroga-se sobre o que matara.

Metade do corpo da barata estava do lado de fora da porta, mas estava viva. Quando se preparava para repetir o gesto, reparou na cara da barata. A mão que se preparava para desferir um novo golpe é levada ao seu próprio estômago que recuara para dentro do seu corpo, numa manifestação de profunda agonia.

Recuou diante do horrível e cru que era a matéria que emergia da barata. Com medo e nojo sente a consciência de si. Sentiu uma estranheza semelhante à que sentia quando via o seu próprio sangue. Soube que para ascender à redenção precisava de passar pela maior repugnância. Mas queria ultrapassar os limites da sua própria humanidade…

«Eu estava comendo a mim mesma, que também sou matéria viva do sabath» (2013:103).

De olhos abertos olhou a vastidão do quarto, «laboratório de inferno» (2013:47). Sente que chegara ao nada. Tocara o que era imundo.

Fizera o que tinha de ser feito. Sentia-se tomada pelo inferno, tomada por um imenso cansaço, adormeceu no quarto onde não queria ter entrado e de onde só queria sair. «O inferno é o meu máximo» (2013:100). Sabe que só a misericórdia a poderá libertar da alegria indiferente em que se banhava «toda plena» (2013:99)

Ao acordar, sente por um instante «uma espécie de abalada felicidade por todo o corpo, um horrível mal-estar feliz em que as pernas me pareciam sumir, como sempre que eram tocadas as raízes da minha identidade desconhecida.» (2013:68).

«E eis que a mão que eu segurava me abandonou». Dona da sua fatalidade, sente, agora que tem que ir sozinha. «Meu reino é deste mundo» (2013:99). O seu reino não era apenas humano.  Sente que há uma santidade humana, a santidade dos leigos, muito mais dolorosa que a dos santos…

Agora sabe o que é provação. Provação, significa provar e ser-se provado.

«Crispei minhas unhas na parede: eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma, gosto de um nada, que no entanto me parecia quase adocicado como o de certas pétalas de flor, gosto de mim mesma – eu cuspia a mim mesma…» (2013:131)-

O divino para mim é o real. A única forma de reconhecer o outro é achar em si mesmo o homem de todos os homens. A condição humana é a paixão de Cristo.

 

Caro leitor, é de um modo mais ou menos simplificado que apresento esta via crucis que Clarice Lispector nos convida a percorrer. Nesta obra, a autora apresenta a despersonalização como a grande objectivação de si mesmo. É por isso que a personagem do livro não tem nome. E também será por isso que o livro não tem começo nem fim. Começa e acaba assim: - - - - - -

 

Boa leitura!

 

Em 20 de Março de 2021



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