Olhando o sofrimento dos outros (Susan Sontag) por Mário Beja Santos
Susan Sontag, falecida em 2004, foi uma das ativistas e pensadoras mais influentes na sociedade norte-americana, e não só, do seu tempo. "Olhando o sofrimento dos outros" (2003) é uma obra fantástica e fundamental para quem queira meditar e debater a problemática da informação contemporânea. Centrada na contemporânea realidade das guerras (e outras calamidades) serem exibidas na hora das refeições, quase como banalizadas, questiona os limites desse "direito à informação". Temos (ou não) o direito a "olhar o sofrimento dos outros"?
Mário Beja Santos, aposentado na categoria de Técnico Superior da Direcção-Geral do Consumidor, Professor do Ensino Superior, autor de livros e artigos nas áreas das políticas de consumidores e qualidade de vida, identificou-se com essa dura e realista visão. O texto que se segue traduz a sua opinião, após atenta leitura e consequente reflexão, sobre esta ímpar obra de Sontag.
Fica, deste modo, estimulada a curiosidade em todos vós para lerem este enriquecedor livro e, em consequência, tirarem as vossas próprias conclusões.
Olhando o sofrimento dos outros
Mário Beja Santos
beja.santos@dg.consumidor.pt
Ler Olhando o Sofrimento dos Outros, de Susan Sontag (Quetzal, 2015), é mergulhar num talentoso ensaio sobre a fotografia de guerra, questionar os lugares do horror, da atrocidade e dos tremendos equívocos que provocam as imagens de guerra e todos aqueles os que as olham.
Foi o último livro de Susan Sontag, falecida em 2004. Ela foi uma das mais importantes influentes intelectuais norte-americanas do seu tempo, ficcionista e ensaísta frequentemente premiada e amplamente traduzida.
Estamos perante uma meditação ímpar sobre o sofrimento que ocorre em volta de todas as guerras. Ela dirá que a guerra é um jogo de homens, a máquina de matar é do género masculino. E quanto às fotografias das vítimas de guerra, elas são uma espécie de retórica: reiteram, simplificam, agitam. Um edifício fendido ao meio é quase tão eloquente como os corpos que jazem na rua. A guerra despedaça, esventra, mutila, destrói, e é por isso que não se pode ficar indiferente à devastação, é o outro lado da carnificina.
Levanta-se o problema da identificação dessas imagens. Quem as lê quer saber de que lado põe as suas emoções; as imagens de civis mortos e de casas demolidas podem avivar o ódio pelo inimigo, e falamos, é claro, de imagens publicadas na imprensa ou vistas na televisão ou na internet.
Ser espectador de calamidades é uma experiência moderna. É uma das apostas da sociedade de consumo e da fábrica de notícias em que assenta o digital. O que nos obriga a ter que pensar que a consciência do sofrimento mudou de natureza, pelo que é registado pelas câmaras e partilhado por bilhões de pessoas. Susan Sontag recorda-nos que, em guerras como a da Crimeia, a guerra civil norte-americana e em todas as outras até à I Guerra Mundial, o combate propriamente dito estava sempre fora da objetiva. As guerras eram praticamente anónimas. Agora as imagens podem ser captadas no calor da batalha, e vistas, quase de imediato, se a censura militar o permitir. Tomamos partido por uma guerra quando a acompanhamos diariamente. Foi o que se passou com o Vietname; os norte-americanos assistiam aos acesos combates enquanto almoçavam ou jantavam e, mais do que o sofrimento, a opinião pública passou a questionar a legitimidade de toda aquela fúria destruidora e a vontade indómita dos guerrilheiros.
A ensaísta também medita sobre os predicados da fotografia: “É a única arte importante em que a formação profissional e os anos de experiência não conferem uma vantagem insuperável em relação a quem não possua nem formação nem experiência (…). Quer a fotografia seja vista como um objeto ingénuo ou como o trabalho de uma artífice experimentado, o seu significado depende do modo como a fotografia é identificada ou falseada; ou seja, depende das palavras”.
O fotojornalismo tornou-se uma realidade durante a II Guerra Mundial e as agências fotográficas apareceram logo após a guerra, como é o caso da celebérrima Agência Fotográfica Magnum, criada em 1947, para onde convergiram aventurosos fotojornalistas freelance. A fotografia declarava-se, então, uma missão mundial.
Um outro aspeto que não se pode descurar é a natureza da memória da guerra. As vítimas, e em muitos casos as gerações seguintes, guardam tal memória, porque houve genocídio, carnificina; porque a guerra civil deixou feridas tremendas; porque há guerras que parecem inextinguíveis, como o conflito Israelo-palestiniano. Há guerras muito fotografadas, e outras, por vezes muito mais cruéis relativamente pouco fotografadas – é o caso dos massacres no Sudão, das campanhas iraquianas contra os curdos, da invasão da Chechénia pelos russos.
Em que difere, então, protestar contra o sofrimento de o reconhecer apenas? Susan Sontag faz-nos viajar na longa genealogia da iconografia do sofrimento. Realça Goya e os seus Desastres da Guerra, um conjunto de gravuras que representam as atrocidades cometidas pelos soldados napoleónicos que invadiram Espanha em 1808. Só uma câmara pode “embalsamar” a morte que está a ocorrer, pessoas condenadas a morrer, imagens de uma guerra tecnológica como foi a Guerra do Golfo de 1991.
Temos também o duplo poder da fotografia – gerar documentos e criar obras de arte visual, muitas vezes ao serviço da sociedade de consumo. Longo olhar sobre estes sofrimentos, a memória por vezes forçada a tanta violência. Susan Sontag não deixa de nos alertar que as imagens daquela guerra terrível, aterradora não têm o mesmo significado para quem passou por essas experiências tremendas, e assim termina o seu ensaio: “Não podemos compreender, não podemos imaginar. É o que sente obsessivamente cada soldado, cada jornalista, cada voluntário de organizações comunitárias, cada observador independente que alguma vez esteve debaixo de fogo e teve a sorte de iludir a morte que se abateu sobre outros ao lado dele. E têm razão”.
Um ensaio excepcional que excede a importância da dimensão fotográfica.
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